domingo, 5 de agosto de 2018

Fique intimo das palavras que você adora.


Sabe aquela palavra que soa como música ao seu ouvido? Fique intimo dela. Saiba tudo sobre ela. Veja as definições no Google, e depois leia sobre ela no Dicionário Informal, e no dicionário de casa, aquele velhinho na estante. Se você não tem um dicionário em casa, é uma boa oportunidade.

Conheça a tradução em outras línguas, e se a sua língua favorita não for alfabética, conheça outros modos de escrever essa palavra. Tenha urgência dessa palavra. Pode ser subjetivo, paralelepípedo, bissetriz, intimidade ou reciprocidade - essa palavra é sua. Se apodere dela. Segure-a bem firme, o mais junto do peito e repita, repita, repita mil vezes, repita incansavelmente.

Quantas coisas são verdadeiras nossas como as palavras? Podem lhe roubar os sonhos, o namorado, a namorada, o salário no fim do mês – ou no começo, mas podem lhe roubar a palavra? Ainda que seja um palavrão: é seu, a imagem desse palavrão é sua. É nosso. É tudo nosso.
Se agarre, se apegue, se jogue. Se apegue a sua palavra. A sonoridade, a estética, a etimologia... Veja se ela está presente no título de algum livro e, se julgar conveniente, devore o livro, e assim faça com músicas, poemas, filmes, vídeos do YouTube.

Ao escolher ser intimo dessa palavra, Lugaridade me contou que você será intimo de si mesmo.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Aquela coisa ainda sem nome #2


Oi Daniel de 17 de julho de 2017.

Se alguém me dissesse um ano atrás que eu estaria hoje sentado nesse banco, esperando dar 10:40 eu olharia de soslaio e diria: será?

Será que as coisas dariam certo mesmo? Será que aqueles dias de angústia tremenda e a sensação de não estar dando conta passaria? Será que eu veria um sentido concreto em tudo o que eu fazia?

Se eu pudesse olhar para o Daniel de um ano atrás e falar com ele: mas menino, vai dar certo. Você vai encontrar um trabalho em que você sinta uma conexão com ele, você vai resolver suas pendências pessoais, você vai conversar as coisas certas com as pessoas certas, e Daniel, as coisas vão ficar bem. Mesmo. Seus olhos perderão a sombra que traz o resquício de mágoas do passado e laços serão restabelecidos.

Vai passar, Daniel.

Vai passar.

Vai passar e no dia 17 de julho vai ser um bom dia.

E os outros dias serão bons dias, por que você aprendeu que é você quem faz um dia ser bom ou não.

Vai que é sua.

Com amor, Daniel.

domingo, 13 de maio de 2018

Aquela coisa ainda sem nome


É uma dor estranha. Não sei também se é dor ou incômodo. Sabe quando você come um churrasquinho de carne de boi na rua, e entre seus dentes ficam aquelas linhas de carne e você não tem fio dental na bolsa e precisa esperar chegar em casa e dá aquela sensação que você não decide se é dor ou só incômodo? É assim.

O engraçado é que você acorda e tudo bem. De repente você vai se situando, se recordando de como tudo está – “se ambientando”, esta é a expressão – e não, não está tudo bem. Ao telefone, sábado passado uma amiga disse que vai doer por um tempo indeterminado: pode durar 15 minutos ou a vida inteira. Eu queria que não doesse, porquê eu tenho que seguir em frente e eu me sinto traindo a mim mesmo indo sem ir, totalmente.

Uma das coisas que estou herdando da faculdade de Matemática é uma necessidade de racionalização dos sentidos de onde estou – é claro que para a Matemática o que vale é a lógica – e nesse exato momento é essa vontade de compreender todos os fenômenos que me deixa assim, no meio de um tornado silencioso.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Autoabraço

Uma coisa boa que as baixas temperaturas me trouxeram essa semana, além da necessidade de usar moletom, foi a necessidade de me abraçar. E como é bom redescobrir isso. 

Outro dia comentei aqui que ando um pouco sem conexão comigo mesmo e com algumas coisas  que estão a minha volta. E nesta semana, enquanto eu aguardava o transporte tarde da noite, fui obrigado a me abraçar para concentrar o meu calor e, meu Deus, como foi maravilhosa a sensação de sentir a minha energia novamente. 

Hoje mesmo, depois desse êxtase, comentei com meus alunos sobre o poder das energias que nos cercam e as que nos cercam. Esses assuntos parecem um pouco complexos para se tratar com meninos de 10 a 13 anos, mas eu não posso deixar que eles desistam de si, ou permitam que outras coisas estejam entre a relação que eles têm consigo mesmos. E depois de falar sobre as energias, eu sugeri: se abracem meninos. Se abracem. 

Eu não sei se mais feliz é o que parte e tem o prazer de voltar ou é o que nunca se perdeu e sempre esteve consigo, sei apenas que todos têm o direito de estar bem consigo e podem redescobrir o doce calor de seu próprio abraço. Uma violência psicológica que eu vejo todos os dias são pessoas que são arrancadas de si mesmas a força. Cabe o título do livrado Pe. Fábio de Melo que nunca li: “Quem me roubou de mim?”


Talvez por isso, meu corpo tem implorado que eu volte a ler poesia:  esse abraço não pode acontecer apenas nos dias frios.

domingo, 15 de abril de 2018

Tão incerto de mim

Algumas coisas estranhas vêm acontecendo ultimamente, e eu já não falo dos dias que parecem mais curtos ou da sensação de que o mundo pode explodir a qualquer minuto; me refiro a sensação de não conseguir me conectar mais a algumas coisas e que apesar de no fundo estar sentindo uma culpa, me conforto: está tudo bem.

De alguma forma, acredito que estamos todos sem sentindo algum em busca de algum sentido e que nem a soma de todos os afetos seriam capazes de suprir esses buracos que a indiferença dos dias modernos tem deixado, entretanto, quando penso que está tudo bem se eu ficar o dia todo no quarto sem fazer nada grande demais ou comum para a minha idade, fico pensando: está tudo bem mesmo?

Estou bem próximo dos 22 anos e estou percebendo que a vida é mesmo um brinquedo de parque a la montanha russa e que tudo bem se houver a calmaria após as curvas, pois é o tempo de respirar antes que tudo decole e mesmo que você queira pular lá de cima, a gravidade e a sanidade lhe impedem. No fim, fica você fazendo e sendo o melhor que pode naquele dia


Sinto falta da minha criatividade dos dezoito anos. Do ânimo dos treze. Do barulho dos dezenove. Do afeto dos vinte. Estou com saudade de versões de mim que tinham mais a oferecer. Acho que hoje me tornei os que pedem. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

2018 e let it go

Nas últimas semanas, com tempo livre para tudo demais, comecei a observar meus dentes. Eu tenho umas falhas. Irregulares. Bastante irregulares. Sempre que tiro uma foto sorrindo, dou zoom nos dentes e analiso as falhas. Por trás das falhas eu vejo lacunas.

Lacunas abertas que são o espaço de quem já foi. Feridas abertas. Consertar essas falhas demandarão tempo, esforço e dor. Fechar as lacunas também. Não é como se uma pessoa coubesse na falha dos meus dentes: existem lacunas que tem um tamanho específico, e se formos mais insistentes, talvez encontraremos cpf e rg de quem deixou a lacuna.

Estar de férias é bom porquê eu posso recuperar a energia. Recuperar demais. As vezes tudo já foi recuperado – e é hora de olhar o espelho. Os espaços entre dentes – lacunas na alma -, os quilinhos a mais balançando para lá e para cá, as espinhas explodindo dando a sensação de estar numa constante onda de ansiedade – que fisicamente não tenho sentido. Tudo que eu sinto ultimamente são os meus movimentos.

Semana passada recebi dois amigos em casa. Ela veio na quarta e conversamos sobre os sentimentos de ser quase adultos. Ele veio na quinta e eu pude sentir que não estou sozinho nas perdições do mundo. Não é como se a gente buscasse pessoas que sofrem como nós, mas ter alguém que te entenda e te abrace, jurando que tudo vai ficar bem - até porquê ele acredita veemente nisso para si -, é uma das melhores coisas que podem acontecer numa quinta-feira de janeiro.

No sábado conversei sério com meus pais e pude abrir a janela para o sol entrar e expulsar os vampiros. Agora sou mais eu. Olho para o espelho, vejo meus olhos retomarem o brilho. Não durmo mais com a TV ligada. Leio bastante (5 livros nesses 17 primeiros dias de 2018), converso muita coisa importante com uma amiga no Whatsapp, estudo para provas, penso no TCC, cuido dos projetos pessoais, interajo com pessoas no Instagram, e o sorriso ainda representa as lacunas.

Especificamente hoje, 17 de janeiro, eu acordei um pouco estranho. Seja o resfriado a quem culpo o ventilador ou as minhas energias me lembrando que eu poderia estar fazendo mais, ou saudade dos meus amigos, ou os fantasmas que estão rondando para ver se me assustam: hoje foi um dia difícil. Não que tenha acontecido algo grande demais, ou pesado demais, ou chato demais: foi um dia que eu vivi em terceira pessoa. “Vire à direita”. “Tempere o cará”.

Para finalizar esse dia, uma playlist de MPB. Não para parecer algo que não sou, ou forjar sentimentos que não são meus: é para abrir os canais e deixar as lágrimas lavarem as lacunas da alma. Será vontade de usar o cartão de crédito? Será vontade de reafirmar a minha identidade? Será o calor? Acho que não, não e não. Acho que são as lacunas, que deixam tudo silencioso demais e faz com que qualquer ruído ganhe um eco ensurdecedor, que dá ainda mais a noção de vago.

Tenho mais duas semanas, e o amanhã vai ser melhor.


Ou não.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Homens de verdade se despedem

O uso do termo homens pode ser substituído por qualquer outra palavra que designe a classe de pessoas importantes para nós: amigos, namorados, namoradas, colegas, irmãos, pais, filhos, tios, primos. Pessoas que conheceram nossa sina, que seguraram nossa mão, ou que só flertamos pelo Tinder: gente de verdade se despede.

Algumas pessoas parecem nunca terem sido abandonadas. Aquele conflito interno de procurar alguém que de repente não está mais disponível nos faz pensar onde erramos. Não que pensar nos nossos erros seja algo ruim – ruim é o desespero, é a sensação de impotência, a sensação de que você não é bom para ninguém, e antes que me questionem a ideia de ser bom para alguém, dou-lhe a réplica: todos nós queremos ser aceitos, e quando vários abandonos acontecem, a gente para e pensa: será que sou eu o problema?

Não. Você não é o problema. O problema é a cultura da indiferença. A cultura do se quiser falar comigo me procure. Não procuro você. Você não me procura. Ficamos dois paranoicos, um de cada lado, achando que o outro está chateado conosco – ou até mesmo fazendo bonequinhos de vudu - e no final, acabamos por parar de falar por completo, e vamos embora sem nos despedir, sem pensar em como o outro está, sem nos preocupar sem pelo menos agradecer pelos bons momentos. Ao contrário, saímos feito políticos que mudam de partido e levam seus dias a demonizar o passado, a desdenhar o que não queremos mais.

Pessoas de verdade se despedem. Se despedem pelo respeito pelo outro, ou me diga que não lhe incomoda as mensagens serem enviadas, serem lidas e não respondidas? Se despedem por entender que aquele lugar já não lhe satisfaz e ela pode, e deve, seguir em frente, mas e com quem fica? Será que o cobertor que aqueceu a todos não vale mais? A gente quer seguir em frente sendo adultos e donos do nosso nariz, quando não passamos de crianças assustadas tomando decisão às cegas.

Todas as pessoas que foram sem despedir deixaram seus buracos negros. Por mais que eu tente substituir por outra coisa, ou deixar para lá, sempre aquele lugar estará ali. A ferida que não cicatriza, o buraco que leva tudo de todos. O vazio que não se preenche. Gente de verdade se despede, pois acredita que, apesar de tudo, um dia alguém lhe amou.