quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Homens de verdade se despedem

O uso do termo homens pode ser substituído por qualquer outra palavra que designe a classe de pessoas importantes para nós: amigos, namorados, namoradas, colegas, irmãos, pais, filhos, tios, primos. Pessoas que conheceram nossa sina, que seguraram nossa mão, ou que só flertamos pelo Tinder: gente de verdade se despede.

Algumas pessoas parecem nunca terem sido abandonadas. Aquele conflito interno de procurar alguém que de repente não está mais disponível nos faz pensar onde erramos. Não que pensar nos nossos erros seja algo ruim – ruim é o desespero, é a sensação de impotência, a sensação de que você não é bom para ninguém, e antes que me questionem a ideia de ser bom para alguém, dou-lhe a réplica: todos nós queremos ser aceitos, e quando vários abandonos acontecem, a gente para e pensa: será que sou eu o problema?

Não. Você não é o problema. O problema é a cultura da indiferença. A cultura do se quiser falar comigo me procure. Não procuro você. Você não me procura. Ficamos dois paranoicos, um de cada lado, achando que o outro está chateado conosco – ou até mesmo fazendo bonequinhos de vudu - e no final, acabamos por parar de falar por completo, e vamos embora sem nos despedir, sem pensar em como o outro está, sem nos preocupar sem pelo menos agradecer pelos bons momentos. Ao contrário, saímos feito políticos que mudam de partido e levam seus dias a demonizar o passado, a desdenhar o que não queremos mais.

Pessoas de verdade se despedem. Se despedem pelo respeito pelo outro, ou me diga que não lhe incomoda as mensagens serem enviadas, serem lidas e não respondidas? Se despedem por entender que aquele lugar já não lhe satisfaz e ela pode, e deve, seguir em frente, mas e com quem fica? Será que o cobertor que aqueceu a todos não vale mais? A gente quer seguir em frente sendo adultos e donos do nosso nariz, quando não passamos de crianças assustadas tomando decisão às cegas.

Todas as pessoas que foram sem despedir deixaram seus buracos negros. Por mais que eu tente substituir por outra coisa, ou deixar para lá, sempre aquele lugar estará ali. A ferida que não cicatriza, o buraco que leva tudo de todos. O vazio que não se preenche. Gente de verdade se despede, pois acredita que, apesar de tudo, um dia alguém lhe amou.

domingo, 13 de agosto de 2017

Dia dos pais

O domingo de dia dos pais sempre me remete a uma cena que trago da infância bastante incomum: era domingo de dia dos pais, e estávamos em casa assistindo Domingo Legal (época de Augusto Liberato, até); me lembro que foi um daqueles domingos cansativos, e que minha mãe tinha passado todo o dia muito agitada; como de praxe, o programa homenageou os pais e convidou alguns famosos para integrar a bancada de homenageados.

De repente minha mãe, que perdeu o pai aos 13 anos em 1986 ou 1987, começou a chorar. Chorou, chorou, chorou e ficou sem fôlego. Chorei junto sem saber o peso daquela dor: ela chorava porque doía, e por empatia chorei junto. Ao longo dos anos ela vai falando cada vez menos do pai, a não ser as memórias boas, e me pergunto se ela recorda da voz dele e da afeição, eu nunca perdi ninguém e não sei como lidaria com isso.

Ao longo dos anos conheci pessoas que tinham uma relação complicada com os pais, e outras pessoas que nem pai tinham, seja que o pai nunca fora conhecido, ou que o pai tinha falecido, e também as que têm uma relação apaixonante com os pais. Conheci pais que são heróis, pais que são verdadeiros embustes, pais que são linha dura e de coração mole (Djalma entra fácil nesse grupo), mães que são pais, e hoje fico pensando que ser humano é esse que carrega em seu peito o dom de super-herói, que manda você soprar o machucado e continuar brincando, que dá um puxão de orelha, que deixa de comprar roupas para te dar confortos que ele não teve.

Trago em meu peito a alegria de dividir esse dia de hoje com meu pai, e sinto uma compaixão ímpar de quem não pode sentir essa mesma alegria, e que neste domingo a cabeceira da mesa parecerá mais vazia do que qualquer outro dia do ano. Trago o prazer de fazer longos planos de melhorias da casa com meu pai, mas divido o coração com a dor da Marcela que perdeu o pai ontem, a dor do Thiago, da Ângela, da Nacele, de Luiz, Francisco, Paulo, César, Joões e Marias que perderam os pais um dia e eu sinto muito por eles não poderem dar um abraço apertado no pai hoje.

Um obrigado a todos os pais que salvam seus filhos. Feliz dia dos pais!

sábado, 29 de julho de 2017

Ser quem sou

Acordei neste sábado com disposição para falar de uns assuntos que venho evitando falar há um tempo. Evitar falar algo talvez seja comodismo diante de uma situação, ou desejo de que aquilo se torne irrelevante e parecemos lidar com cada vez mais indiferença, quando no fundo ainda estamos sufocados. A vida é um baile de máscaras, e agora é meia-noite: é hora de tirá-las.


Quando você começa a aceitar as suas limitações, seja admitir que não consegue carregar um saco de cimento, ou que aquelas calças que você guarda sem uso não encontrarão mais as curvas do seu corpo, aceita que livros de autores russos não são tão fáceis de ler assim, e que você não está disposto a fazer o movimento suficiente, você tira de si o peso da cobrança e ao pensar “será que sou bom?” você debate interiormente sobre ser bom para quem. Aceitar que eu não sou tão calmo assim, aceitar que eu preciso de heróis, aceitar que eu sou falho, e me pareço com aqueles tipos de pessoas sem sorte que fazem burrada de minuto em minuto, me faz pensar que eu preciso melhorar (e ufaaaa, graças a Deus eu preciso melhorar).


Aceitar que sou limitado abre o leque para muitas outras coisas, como que talvez eu não tenha tantos amigos assim, e nesse mesmo movimento, aceito que talvez eu não seja tão forte assim, e seja capaz de cuidar das pessoas como eu prometi (ou acreditei que poderia). Eu sou frágil, bastante, eu erro e, indiscutivelmente, lido com as minhas consequências sem discutir, sem pestanejar, sem culpar outros: eu me justifico mas recebo as sanções.


Eu aceito e admito: eu sou falho. Eu erro. Não tenho verdades prontas. Não sou um bom modelo a seguir. Não pratico todas as minhas crenças. Não sou tão desconstruído assim. Tenho preconceitos. Não sirvo pra super-herói. Tenho uma oratória ruim. Preciso de calor humano a moda parisiense. Admito que não sou expert em Matemática. Não sou fácil de lidar: eu tenho coisas minhas que nem eu mesmo sei o porquê. Qualquer coisa que renuncie isso, é expectativa e eu (não) tenho o direito (dever) de cumpri-las.

Mas em contrapartida a tudo isso, tenho uma vontade enorme de acertar. Agora é meia-noite e, enfim, todos conhecem minha face.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Alive

Na segunda série tive um amigo chamado Michael. Ele era um desses meninos branquelos e alto, do cabelo escorrido. Das poucas coisas que consigo me lembrar de Michael, é de uma vez que ele chegou na escola chorando porque ele não tinha feito o dever de casa, e sua mãe tinha lhe dado umas palmadas. É engraçado como eu consigo me lembrar de coisas que aconteceram alguns anos atrás (e eu acho legal isso), mas às vezes dói ter algumas lembranças.


Como a vez em que minha mãe fez pastel porque umas pessoas tinham prometido vir aqui fazer trabalho, e não vieram. Engraçado é que no outro dia eu perdoava todos, e me abria mais uma vez as coisas. Hoje em dia eu sou mais resistente a isso. Ser adulto nos deixa inflexíveis e burros (burrice no sentido de saber o que se deve fazer, e sempre fazer o oposto disso).


Não sei, mas me sinto cada dia com menos capacidade de amar o amor bom. O amor ágape sabe, aquele amor que acontece por si e por si acontece, sem precisar de recompensa, sem precisar de algo em troca. Sempre me vejo deixando de amar algo ou alguém por ter sido chateado, ou por não ser correspondido, ou pelas coisas não serem interessantes. Eu entendo que todos são dignos de nosso amor, mas esse desdobramento pelos outros tem me cansado.


Me sinto um velho num corpo de 21 anos que poderia estar fazendo tanta coisa, mas ao invés disso opta por uma Brahma e fica de boa. Com isso, me vem a pergunta: “será que está tudo bem?” Será que o silêncio que tem me acalmado nos últimos dias, realmente está me fazendo bem, ou é uma fase de aceitar o que tenho por comodismo e resistência à mudança?


Eu me lembro do Michael que se mudou no final de 2005 para Santa Catarina e me lembro de ter lhe dado o meu telefone fixo, que nunca tocou. Eu me lembro de tantos outros nomes como Kênia, Francisco, Luana, Kássia, Margarida, Leonardo, Pedro, e vou me lembrando de Joões e Marias que estiveram por aqui e hoje não estão mais, seja porque foram de fato, ou porquê eu os deixei ir. Mas antes de pensar que fui o abandonado, lembro que eu também fui muitas vezes, e que eu continuarei indo, e isso me conforta quando eu aceito que sou um homem do meu tempo (o bendito do sujeito pós moderno, que é pós-tudo, até a ele mesmo). As pessoas estão passando, e eu também estou passando. Uns passam e deixam marcas. Uns passam e fazem morada. Outros nem passam.  


Talvez o meu modo de me apegar as coisas seja eu não me apegando a nada. Estando apenas sobre a cama olhando a TV e o mundo em volta. Me acostumando as mudanças que o mundo propõe, ou que eu me imponho, por entender que não posso ser o mesmo todos os dias, e que preciso mudar.

Por hora vou ficar tranquilo e ouvir Sia. Alive. Afinal, sobrevivi e vou continuar sobrevivendo.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Caos quieto

Estou de férias da faculdade, e como tal, ando fazendo vários nadas. Até que eu levanto cedinho e fico vendo a vida passar pela tela do computador, enquanto o celular vibra a cada 5 minutos com uma mensagem espaçada, ou então jogo meu recém comprado video game, tentando entender os sentidos das fases, que cada vez mais me parecem sem objetivo. Estou num estado de quase calamidade e eu me perdoo.

Ao telefone com Jessé outro dia, percebemos que estamos em uma fase em que precisamos de pessoas que queiram ficar ao nosso lado por sermos somente quem somos, e por talvez estarmos indispostos a gastar energias com aquilo que não soe natural para nós, preferimos ser homens da caverna da modernidade e deixar que as pessoas vão, e nem é por covardia: estamos salvando nossos mundos e nossos corações.

Imaginar-me hoje acordando às 8 da manhã e enrolar até as 10:30, tomar um banho de meia hora sair de casa atrasado, dar aulas e voltar para casa correndo para o nada é meio estranho para alguém que já acostumou com a produtividade, mas eu me perdoo. Me perdoo por saber que quando os dias precisam que eu me divida em cem, eis que me dividirei. Eu me perdoo por estar mais próximo de mim,  e esse estar mais próximo inclui tomar sol de manhã e dormir com a TV desligada. Não tem nada mais gostoso do que sentir que eu estou em um ambiente fisico e psicologicamente, e essa paz só eu sou capaz de me dar. Nem a ameaça de desemprego me assustou: é um dia de cada vez.

Na semana que vem estarei de férias do trabalho também. Pretendo adiantar umas burocracias do trabalho e me dedicar a coisas novas que vem por aí. E se eu não fizer, tudo bem também. Se eu ao menos acordar bem todos os dias, terei ganhado os meus dias. Nessa atual fase, não ando esperando nada e nem fazendo nada que dependa de um grande esforço. O fim é o mesmo para os que se culpam e os que se perdoam.

Enquanto escrevo essas linhas, assisto um show de Cazuza de 1985. Ele estava tão bem, talvez não imagine que morreria logo em pouco tempo pelo vírus do amor. Caio também não, e antes de poeta, gosto de me lembrar dele como um jardineiro de um canteiro de rosas. Cazuza amava. Prefiro pensar que no fim o que vale é a quantidade de vezes em que fizemos o bem a alguém, mas não ei de sacrificar os meus sentidos. Não me traírei. Eles não se traíram. Não o farei.

sábado, 17 de junho de 2017

21 anos

Essa semana faço 21 anos. 21 voltas da Terra em torno do Sol. Quando para pensar que 21 anos é coisa para cacete, me assusto mais com o fato de que sempre que me dou conta de que não sou mais um moleque é como se eu acordasse. É sempre assim: estou vivendo dias sem sentido, me bate uma onda filosófica e eu acordo, e penso que o despertar é eterno, e dois meses depois estou eu despertando de novo. Fica aparecendo que os dias são sonhos dentro de outros sonhos enquanto sonhamos que estamos sonhando.  

Quando penso em quanta coisa fiz nesses 20 anos, em quantas vezes mudei a direção do barco, quantas vezes disse que estava cansado, em quantos dias fiquei só vendo a palha rolar pelo deserto, imagino o quanto ainda há para fazer. E as vezes me dá sono fazer tanto. Outras vezes me dá esperança de que tenho muito a fazer, antes que venham o peso dos 30, 40 ou 50 (e é engraçado como a juventude é subitamente mais curta do que a velhice). Me lembro de ter escrito, equivocadamente, dois anos atrás, um texto em que eu afirmava não ter de viver mais de 25 anos. Hoje eu acredito que 100 anos não me seriam suficientes.

Para os 21, quero despertar do meu sono acomodado e ir despertando um pouco a cada dia. Quero me aceitar e me permitir ser quem eu sou (e a bandeira é maior que a polêmica sexualidade), quero aceitar a solidão voluntária (ou involuntária, não sei), quero aceitar as minhas limitações e não sofrer por elas. Quero aceitar o espelho, aceitar as minhas psicoses, aceitar que sou dos que dormem no meio dos filmes, aceitar os meus fracassos e quero falar sobre eles com a finalidade de ajudar as pessoas a lidarem com as suas dores. Por falar em dores, quero ser mais sustentável, e que até as dores sejam frutíferas, que as perdas sejam frutíferas, e já aviso a vida: não estou pronto ainda, portanto, nada de surpresas. Aos 21 quero falar menos, bem menos. Dez dias de silêncio, talvez. Quero ouvir mais, muito mais. Ouvir minhas avós, os meus sagrados que me sussurrem os bem-dizeres. Quero ouvir os meus superiores e os meus mestres. Quero ouvir minha mãe e meu pai.

Para os 21 quero reencontrar Deus e tudo o que o Sagrado é na vida de um homem. Nem digo que preciso ler mais, mudo a rota: para os 21 quero absorver mais. Absorver as pessoas, os sentidos, as palavras, os doces. Quero beijar também: quero beijos sem censura e sem pudor. Eu quero abrir as asas, e me organizar para uma vida centrada nas coisas boas. Quero dormir menos e abandonar a vida virtual. Não posso mais só rolar feed do Facebook.

Se rolar de ser zen, assino embaixo. Mais vídeos da Monja Coen, mais pensar antes de agir, mais verdade, bondade e necessidade antes de falar. Ajudar mais, me permitir ser ajudado. Quero me conectar a pessoas boas e honestas, e que querem ser felizes.  Quero fazer o bem, de verdade, rompendo tabus. Quero deixar para trás tudo o que me impede de seguir plenamente o meu caminho. Quero encontrar e reencontrar Luhs, Anas, Thiagos, Matthews’s, Samaras, Joãos e Marias vida a fora.


Eu só quero ser feliz. Feliz.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Oz.

Eu estou mais uma vez aqui sentado a beira do caminho de tijolos dourados sem saber como seguir. Deveria eu cantar um jingle a la moda disneyana e de repente me ver coberto de pássaros azuis e borboletas? Deveria largar a corda e deixar que o balde caia na cabeça de quem está dentro do poço administrando a água? Deveria eu só ignorar e me arrastar pela estrada, tentando chegar ao grande Oz e ir ver se ele me leva para o Kansas?

Quando penso na última possibilidade, lembro que Oz era apenas alguém que também precisava ser salvo, e que para ter um coração o homem de lata teve de ter amor e compaixão, o leão teve de ser corajoso para não ser mais medroso, o espantalho teve de aprender a ser sábio para dotar-se de sabedoria e que Doroty precisou salvar a todos antes de salvar a si mesma. Mas será que sobre isso que é a vida? Sobre socorrer os gritos de desespero, e no final esperar que as pessoas que te cercam te salvar, ou salvar a todos antes de salvar a si?

Quando lembro que essa coisa de herói é balela e o máximo que podemos fazer é dar as mãos uns para os outros e ver se nós salvarmos todos juntos, me lembro dessa mania de individual que vivemos e me entristeço. Entristeço pela dor ser minha e sentir que cada dia mais as pessoas me ouvem com menos interesse, e numa vontade de querer que minha dor seja respeitada, vou desrespeitando o sentimento dos outros, a dor dos outros, os sentidos dos outros, e na tentativa de me mostrar aqui, eu vou desrespeitando a presença dos demais. É só um apanhado de como eu quero que as coisas sejam, e do modo com o qual não quero aceitar que sejam, e esse mundo que eu renego, eu começo a fingir que ele não existe, na fugaz tentativa de ser Oz, o supremo e poderoso, que no final nada mais era que um enganador que usava máscaras para surpreender os demais.

Será que não sou Oz tentando me fazer de Doroty? Será que no final não somos todos um monte de tentativas de poderosos usando máscaras para surpreender, que no fundo só querem ser salvos e ir para casa?

Eu só quero ser feliz. Feliz.