domingo, 13 de maio de 2018

Aquela coisa ainda sem nome


É uma dor estranha. Não sei também se é dor ou incômodo. Sabe quando você come um churrasquinho de carne de boi na rua, e entre seus dentes ficam aquelas linhas de carne e você não tem fio dental na bolsa e precisa esperar chegar em casa e dá aquela sensação que você não decide se é dor ou só incômodo? É assim.

O engraçado é que você acorda e tudo bem. De repente você vai se situando, se recordando de como tudo está – “se ambientando”, esta é a expressão – e não, não está tudo bem. Ao telefone, sábado passado uma amiga disse que vai doer por um tempo indeterminado: pode durar 15 minutos ou a vida inteira. Eu queria que não doesse, porquê eu tenho que seguir em frente e eu me sinto traindo a mim mesmo indo sem ir, totalmente.

Uma das coisas que estou herdando da faculdade de Matemática é uma necessidade de racionalização dos sentidos de onde estou – é claro que para a Matemática o que vale é a lógica – e nesse exato momento é essa vontade de compreender todos os fenômenos que me deixa assim, no meio de um tornado silencioso.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Autoabraço

Uma coisa boa que as baixas temperaturas me trouxeram essa semana, além da necessidade de usar moletom, foi a necessidade de me abraçar. E como é bom redescobrir isso. 

Outro dia comentei aqui que ando um pouco sem conexão comigo mesmo e com algumas coisas  que estão a minha volta. E nesta semana, enquanto eu aguardava o transporte tarde da noite, fui obrigado a me abraçar para concentrar o meu calor e, meu Deus, como foi maravilhosa a sensação de sentir a minha energia novamente. 

Hoje mesmo, depois desse êxtase, comentei com meus alunos sobre o poder das energias que nos cercam e as que nos cercam. Esses assuntos parecem um pouco complexos para se tratar com meninos de 10 a 13 anos, mas eu não posso deixar que eles desistam de si, ou permitam que outras coisas estejam entre a relação que eles têm consigo mesmos. E depois de falar sobre as energias, eu sugeri: se abracem meninos. Se abracem. 

Eu não sei se mais feliz é o que parte e tem o prazer de voltar ou é o que nunca se perdeu e sempre esteve consigo, sei apenas que todos têm o direito de estar bem consigo e podem redescobrir o doce calor de seu próprio abraço. Uma violência psicológica que eu vejo todos os dias são pessoas que são arrancadas de si mesmas a força. Cabe o título do livrado Pe. Fábio de Melo que nunca li: “Quem me roubou de mim?”


Talvez por isso, meu corpo tem implorado que eu volte a ler poesia:  esse abraço não pode acontecer apenas nos dias frios.

domingo, 15 de abril de 2018

Tão incerto de mim

Algumas coisas estranhas vêm acontecendo ultimamente, e eu já não falo dos dias que parecem mais curtos ou da sensação de que o mundo pode explodir a qualquer minuto; me refiro a sensação de não conseguir me conectar mais a algumas coisas e que apesar de no fundo estar sentindo uma culpa, me conforto: está tudo bem.

De alguma forma, acredito que estamos todos sem sentindo algum em busca de algum sentido e que nem a soma de todos os afetos seriam capazes de suprir esses buracos que a indiferença dos dias modernos tem deixado, entretanto, quando penso que está tudo bem se eu ficar o dia todo no quarto sem fazer nada grande demais ou comum para a minha idade, fico pensando: está tudo bem mesmo?

Estou bem próximo dos 22 anos e estou percebendo que a vida é mesmo um brinquedo de parque a la montanha russa e que tudo bem se houver a calmaria após as curvas, pois é o tempo de respirar antes que tudo decole e mesmo que você queira pular lá de cima, a gravidade e a sanidade lhe impedem. No fim, fica você fazendo e sendo o melhor que pode naquele dia


Sinto falta da minha criatividade dos dezoito anos. Do ânimo dos treze. Do barulho dos dezenove. Do afeto dos vinte. Estou com saudade de versões de mim que tinham mais a oferecer. Acho que hoje me tornei os que pedem. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

2018 e let it go

Nas últimas semanas, com tempo livre para tudo demais, comecei a observar meus dentes. Eu tenho umas falhas. Irregulares. Bastante irregulares. Sempre que tiro uma foto sorrindo, dou zoom nos dentes e analiso as falhas. Por trás das falhas eu vejo lacunas.

Lacunas abertas que são o espaço de quem já foi. Feridas abertas. Consertar essas falhas demandarão tempo, esforço e dor. Fechar as lacunas também. Não é como se uma pessoa coubesse na falha dos meus dentes: existem lacunas que tem um tamanho específico, e se formos mais insistentes, talvez encontraremos cpf e rg de quem deixou a lacuna.

Estar de férias é bom porquê eu posso recuperar a energia. Recuperar demais. As vezes tudo já foi recuperado – e é hora de olhar o espelho. Os espaços entre dentes – lacunas na alma -, os quilinhos a mais balançando para lá e para cá, as espinhas explodindo dando a sensação de estar numa constante onda de ansiedade – que fisicamente não tenho sentido. Tudo que eu sinto ultimamente são os meus movimentos.

Semana passada recebi dois amigos em casa. Ela veio na quarta e conversamos sobre os sentimentos de ser quase adultos. Ele veio na quinta e eu pude sentir que não estou sozinho nas perdições do mundo. Não é como se a gente buscasse pessoas que sofrem como nós, mas ter alguém que te entenda e te abrace, jurando que tudo vai ficar bem - até porquê ele acredita veemente nisso para si -, é uma das melhores coisas que podem acontecer numa quinta-feira de janeiro.

No sábado conversei sério com meus pais e pude abrir a janela para o sol entrar e expulsar os vampiros. Agora sou mais eu. Olho para o espelho, vejo meus olhos retomarem o brilho. Não durmo mais com a TV ligada. Leio bastante (5 livros nesses 17 primeiros dias de 2018), converso muita coisa importante com uma amiga no Whatsapp, estudo para provas, penso no TCC, cuido dos projetos pessoais, interajo com pessoas no Instagram, e o sorriso ainda representa as lacunas.

Especificamente hoje, 17 de janeiro, eu acordei um pouco estranho. Seja o resfriado a quem culpo o ventilador ou as minhas energias me lembrando que eu poderia estar fazendo mais, ou saudade dos meus amigos, ou os fantasmas que estão rondando para ver se me assustam: hoje foi um dia difícil. Não que tenha acontecido algo grande demais, ou pesado demais, ou chato demais: foi um dia que eu vivi em terceira pessoa. “Vire à direita”. “Tempere o cará”.

Para finalizar esse dia, uma playlist de MPB. Não para parecer algo que não sou, ou forjar sentimentos que não são meus: é para abrir os canais e deixar as lágrimas lavarem as lacunas da alma. Será vontade de usar o cartão de crédito? Será vontade de reafirmar a minha identidade? Será o calor? Acho que não, não e não. Acho que são as lacunas, que deixam tudo silencioso demais e faz com que qualquer ruído ganhe um eco ensurdecedor, que dá ainda mais a noção de vago.

Tenho mais duas semanas, e o amanhã vai ser melhor.


Ou não.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Homens de verdade se despedem

O uso do termo homens pode ser substituído por qualquer outra palavra que designe a classe de pessoas importantes para nós: amigos, namorados, namoradas, colegas, irmãos, pais, filhos, tios, primos. Pessoas que conheceram nossa sina, que seguraram nossa mão, ou que só flertamos pelo Tinder: gente de verdade se despede.

Algumas pessoas parecem nunca terem sido abandonadas. Aquele conflito interno de procurar alguém que de repente não está mais disponível nos faz pensar onde erramos. Não que pensar nos nossos erros seja algo ruim – ruim é o desespero, é a sensação de impotência, a sensação de que você não é bom para ninguém, e antes que me questionem a ideia de ser bom para alguém, dou-lhe a réplica: todos nós queremos ser aceitos, e quando vários abandonos acontecem, a gente para e pensa: será que sou eu o problema?

Não. Você não é o problema. O problema é a cultura da indiferença. A cultura do se quiser falar comigo me procure. Não procuro você. Você não me procura. Ficamos dois paranoicos, um de cada lado, achando que o outro está chateado conosco – ou até mesmo fazendo bonequinhos de vudu - e no final, acabamos por parar de falar por completo, e vamos embora sem nos despedir, sem pensar em como o outro está, sem nos preocupar sem pelo menos agradecer pelos bons momentos. Ao contrário, saímos feito políticos que mudam de partido e levam seus dias a demonizar o passado, a desdenhar o que não queremos mais.

Pessoas de verdade se despedem. Se despedem pelo respeito pelo outro, ou me diga que não lhe incomoda as mensagens serem enviadas, serem lidas e não respondidas? Se despedem por entender que aquele lugar já não lhe satisfaz e ela pode, e deve, seguir em frente, mas e com quem fica? Será que o cobertor que aqueceu a todos não vale mais? A gente quer seguir em frente sendo adultos e donos do nosso nariz, quando não passamos de crianças assustadas tomando decisão às cegas.

Todas as pessoas que foram sem despedir deixaram seus buracos negros. Por mais que eu tente substituir por outra coisa, ou deixar para lá, sempre aquele lugar estará ali. A ferida que não cicatriza, o buraco que leva tudo de todos. O vazio que não se preenche. Gente de verdade se despede, pois acredita que, apesar de tudo, um dia alguém lhe amou.

domingo, 13 de agosto de 2017

Dia dos pais

O domingo de dia dos pais sempre me remete a uma cena que trago da infância bastante incomum: era domingo de dia dos pais, e estávamos em casa assistindo Domingo Legal (época de Augusto Liberato, até); me lembro que foi um daqueles domingos cansativos, e que minha mãe tinha passado todo o dia muito agitada; como de praxe, o programa homenageou os pais e convidou alguns famosos para integrar a bancada de homenageados.

De repente minha mãe, que perdeu o pai aos 13 anos em 1986 ou 1987, começou a chorar. Chorou, chorou, chorou e ficou sem fôlego. Chorei junto sem saber o peso daquela dor: ela chorava porque doía, e por empatia chorei junto. Ao longo dos anos ela vai falando cada vez menos do pai, a não ser as memórias boas, e me pergunto se ela recorda da voz dele e da afeição, eu nunca perdi ninguém e não sei como lidaria com isso.

Ao longo dos anos conheci pessoas que tinham uma relação complicada com os pais, e outras pessoas que nem pai tinham, seja que o pai nunca fora conhecido, ou que o pai tinha falecido, e também as que têm uma relação apaixonante com os pais. Conheci pais que são heróis, pais que são verdadeiros embustes, pais que são linha dura e de coração mole (Djalma entra fácil nesse grupo), mães que são pais, e hoje fico pensando que ser humano é esse que carrega em seu peito o dom de super-herói, que manda você soprar o machucado e continuar brincando, que dá um puxão de orelha, que deixa de comprar roupas para te dar confortos que ele não teve.

Trago em meu peito a alegria de dividir esse dia de hoje com meu pai, e sinto uma compaixão ímpar de quem não pode sentir essa mesma alegria, e que neste domingo a cabeceira da mesa parecerá mais vazia do que qualquer outro dia do ano. Trago o prazer de fazer longos planos de melhorias da casa com meu pai, mas divido o coração com a dor da Marcela que perdeu o pai ontem, a dor do Thiago, da Ângela, da Nacele, de Luiz, Francisco, Paulo, César, Joões e Marias que perderam os pais um dia e eu sinto muito por eles não poderem dar um abraço apertado no pai hoje.

Um obrigado a todos os pais que salvam seus filhos. Feliz dia dos pais!

sábado, 29 de julho de 2017

Ser quem sou

Acordei neste sábado com disposição para falar de uns assuntos que venho evitando falar há um tempo. Evitar falar algo talvez seja comodismo diante de uma situação, ou desejo de que aquilo se torne irrelevante e parecemos lidar com cada vez mais indiferença, quando no fundo ainda estamos sufocados. A vida é um baile de máscaras, e agora é meia-noite: é hora de tirá-las.


Quando você começa a aceitar as suas limitações, seja admitir que não consegue carregar um saco de cimento, ou que aquelas calças que você guarda sem uso não encontrarão mais as curvas do seu corpo, aceita que livros de autores russos não são tão fáceis de ler assim, e que você não está disposto a fazer o movimento suficiente, você tira de si o peso da cobrança e ao pensar “será que sou bom?” você debate interiormente sobre ser bom para quem. Aceitar que eu não sou tão calmo assim, aceitar que eu preciso de heróis, aceitar que eu sou falho, e me pareço com aqueles tipos de pessoas sem sorte que fazem burrada de minuto em minuto, me faz pensar que eu preciso melhorar (e ufaaaa, graças a Deus eu preciso melhorar).


Aceitar que sou limitado abre o leque para muitas outras coisas, como que talvez eu não tenha tantos amigos assim, e nesse mesmo movimento, aceito que talvez eu não seja tão forte assim, e seja capaz de cuidar das pessoas como eu prometi (ou acreditei que poderia). Eu sou frágil, bastante, eu erro e, indiscutivelmente, lido com as minhas consequências sem discutir, sem pestanejar, sem culpar outros: eu me justifico mas recebo as sanções.


Eu aceito e admito: eu sou falho. Eu erro. Não tenho verdades prontas. Não sou um bom modelo a seguir. Não pratico todas as minhas crenças. Não sou tão desconstruído assim. Tenho preconceitos. Não sirvo pra super-herói. Tenho uma oratória ruim. Preciso de calor humano a moda parisiense. Admito que não sou expert em Matemática. Não sou fácil de lidar: eu tenho coisas minhas que nem eu mesmo sei o porquê. Qualquer coisa que renuncie isso, é expectativa e eu (não) tenho o direito (dever) de cumpri-las.

Mas em contrapartida a tudo isso, tenho uma vontade enorme de acertar. Agora é meia-noite e, enfim, todos conhecem minha face.