Tem me surgido a ideia de uma vida bem vivida.
O ano que antecedeu os 30 anos foi um ano de muita vivência. Vivência concreta, pé no chão, mão na massa, sol no rosto. Um contraponto aos 28, que foram marcados pelo aprofundamento da ansiedade, pelas crises de pânico dando contorno aos dias e por uma tentativa muito grande de não afundar mais.
Lembro de uma noite em que fui à casa de uma amiga e, ao chegar em casa, estava com o meu namorado ao telefone. Eu reclamava: “eu não estou bem. Eu olho para o céu e não sinto nada”. Essa cena marcou um tempo muito duro. Um tempo em que senti que perdi a ponta do durex, o fio que me mantinha preso à vida. Parecia que eu flutuava.
Sempre que vivencio uma crise, uma desterritorialidade, uma perda de contato comigo, com a terra, minha forma de voltar é tentando organizar um método, uma rotina, um jeito de fazer as coisas funcionarem. Crio uma agenda, uma estrutura para ir vivendo os dias. Na segunda eu faço isso, na terça aquilo (...). É uma tentativa de fazer o modus da vida caber num padrão que ajude a internalizar uma estrutura que, depois de muito vivida, vai organizar as coisas por dentro novamente.
Vivi o final de 2024 não sentindo nada pela minha vida. Ao mesmo tempo em que me sentia agradecido por poder me curar estando dentro de casa, eu me envergonhava de encontrar as pessoas na rua estranhando eu estar em casa numa terça-feira à tarde. Lembro que as consultas médicas eram horríveis. Eu precisava comunicar aos profissionais que me acompanhavam o quanto tudo estava ruim para encontrar soluções que me levassem a um lugar melhor.
Algo que começou naquele tempo e que quero levar para a vida é a perspectiva sobre o meu direito à vida. A ideia de ter uma vida rica, bonita, interessante. Mesmo em casa e sentindo tudo muito esquisito, ofuscado, sem brilho, sem sabor, sem cheiro, sem cor, sem contorno, começou ali a vontade de não permitir que a ponta do durex sumisse de vez.
Comecei um método para ficar bem.
Assumi que me manter em casa o dia todo, todos os dias, não era a opção mais benéfica e olhei para o que a medicina sugeria quando falava do adoecimento mental: atividade física, alimentação, sono, medicação, terapia, bons hábitos. Peguei ainda o que minha psiquiatra trazia desde o começo: a importância de mudar a perspectiva.
Comecei a me mover. Fazia atividade física todos os dias e, mesmo sem vontade, eu ia. Logo veio a yoga on-line, que tinha uma professora dessas muito alto astral, que celebrou comigo minha primeira invertida! Comprei um livro, O Diário Estoico, uma espécie de devocional diário. Se a vida que eu vivi me adoeceu, era preciso uma vida nova.
E, aos poucos, fui descortinando as possibilidades de uma vida melhor.
Algo que me ocorre ao fazer este registro é que, ali, naquele tempo, minha sensibilidade foi aliada de todo o processo.
Num sábado à tarde, julgo que no final de outubro de 2024, fomos ao cinema assistir a um filme que contava a história de uma moça que descobria ter câncer, mas nem por isso se abatia. Participou de desafios de gastronomia, conquistou o primeiro lugar, teve uma filha e, ao final, morreu. O filme tinha o Natal como um de seus cenários. Saí do cinema com uma vontade: meu fio de volta à vida seria pela celebração do Natal.
Na semana seguinte, comprei muita coisa de Natal. Enfeites para a casa, uma árvore de Natal nova e enfeites para a árvore. Montei tudo no fim de semana com meu namorado e fizemos umas fotos lindas.
Eu ainda não fiz as pazes com essas fotos. Em terapia, me dei conta de que elas ainda estão atribuídas a um tempo para o qual eu não quero voltar, apesar de saber que ali estava a melhor versão de mim, a que sustentou muita coisa para que o hoje pudesse ser o hoje.
E o hoje ser o hoje pressupõe muita coisa.
Ter vivenciado todos os momentos, bons ou ruins.
Ter lidado com todos os labirintos e encontrado a saída deles.
Ter entendido que era preciso descobrir novos jeitos de celebrar a existência.
Ter descoberto meu corpo como um lugar sagrado e ter aprendido a respeitá-lo.
Ter descoberto que nem todas as pessoas que eu amo sabem me respeitar e que a noção de que cada um tem seu tempo de respeito em relação a si é tão pessoal quanto a escolha da fragrância do perfume.
Ter acreditado piamente que ficar bem era possível. Em toda consulta com minha psiquiatra, em toda sessão de terapia, a cada medicamento tomado, a cada dica, havia a fé de que tudo aquilo me salvaria.
Redescobri naqueles meses a ideia de uma vida exuberante, tal como Lady Gaga canta em Posh Life.
E uma posh life requer entrega. Requer presença. Requer a crença de que se vive uma posh life.
A cena da retomada da vida e da reconstrução do próprio sentido do viver contrasta muito com a viagem que fiz com meu pai ao Norte de Minas, no comecinho de 2025, e que, após visitar os irmãos dele, ganhou um contorno muito forte em um texto que escrevi na ocasião. Encantado com toda a gentileza com que fomos recebidos e com o modo como todos se referiam à própria vida, me dei conta de que ali ninguém duvidava do próprio passo.
O pé é para caminhar. A estrada, para ser trilhada. O vento, para sentir o sopro.
Ninguém ali duvidava do próprio passo. Não havia um questionamento que pusesse em dúvida que a vida, no fundo - e no raso também - é para ser vivida.
Vivi 2025 como o ano de ver novas formas de vida acontecendo. Viajei para lugares improváveis e prováveis. Entendi que meu corpo precisava do inédito. Minha alma precisava encontrar novos modos de operar. Não era possível que apenas a vida que adoece a gente fosse uma regra.
Experimentei vivências ruins no trabalho e me dei conta de que, nos anos anteriores, era o trabalho que me organizava e ditava o meu ritmo de vida. Se o trabalho funcionasse, tudo certo. Se não, tudo afundava. Dei a mim mesmo o direito de pedir minhas mudanças de lotação na tentativa de descobrir como existir em ambientes em que eu não tivesse de negociar o respeito. Encontrei nos novos ambientes de trabalho muito profissionalismo, porque era disso que eu precisava: da entrega profissional. Não da entrega de tudo. O tudo tem um endereço claro: minha casa.
Trouxe para 2026 a noção da vida como uma celebração. O tempo é agora e ele precisa ser celebrado.
Nunca me importei tanto em ter momentos em que estou bem. Momentos de estar bem com outras pessoas e momentos de estar bem sozinho. Acordar às 4h50 da manhã virou a celebração de poder ser a pessoa que malha com a primeira energia do dia.
Ter momentos de qualidade. Seja com todos os amigos juntos ou com um amigo só, presente. Numa escuta que extrapola os ouvidos e toma conta dos olhos, da sensibilidade da pele, passa para o tato e logo alcança a alma.
2026 tem me ensinado que a vida é para ser vivida de forma inteira. Que não dá para, o tempo todo, deixar a cabeça vaguear por aí sem habitar o presente. Se o presente é festa, vamos celebrar. E não se celebra sem estar, de fato, inteiro.
Só goza quem vive a experiência completa. Quem entende o gatilho do tesão, quem sustenta o prazer e o desconforto, quem entende que o gozo é o ápice da experiência e que ele pressupõe entrega, presença. O gozo do doce após o almoço mostra que é preciso muito autoconhecimento para entender do que a alma precisa - e como é bom saciá-la.
A vida tem se apresentado como algo grande a ser vivido novamente. Novos signos, novos símbolos, novas linguagens. Muita coisa a ser vista, entendida, ouvida, conversada, pensada, sentida, contemplada. Muita história para contar, terreno para pisar, caminho para percorrer, fotos para serem tiradas, memórias para criar.
Tanta coisa que o direito à dúvida do passo já não é mais um direito. E, quando ela vem - porque ela vem -, é a oportunidade de refletir os rumos do tempo.
Seja no dia bom ou ruim, no equilíbrio ou no caos, na bagunça ou na ordem, uma coisa aqui, agora, é lei: em todo o tempo, eu faço o que eu posso. E o que eu posso é o melhor que eu posso fazer.
Ainda que seja muito ou pouco, grande ou pequeno, incrível ou tímido, quente ou frio. O que eu faço, naquele momento, é o melhor que eu posso fazer.
Já não há tempo para duvidar de mim.
A chance de vida é uma só, e vivê-la é a única forma de fazer jus a mim mesmo.