Hoje eu completo 10 anos de escola. E, com isso, 10 anos sendo professor.
Tudo começou numa quarta-feira à tarde, em 2016. Eu tinha 19 anos. Trabalhava na borracharia do meu pai quando recebi uma ligação me chamando para assumir um cargo na Prefeitura de Vespasiano. Larguei tudo, corri para pegar o ônibus, fui até a Secretaria Municipal de Educação. No dia seguinte, cheguei à escola.
Eu não fazia ideia de que aqueles passos me trariam até aqui.
Hoje, 3 de março de 2026, foi o dia em que uma criança foi picada por uma abelha dentro da escola. Ela era alérgica. No caminho para o posto de saúde, descobri que também era cardiopata. Hoje foi o dia em que talvez eu tenha salvado uma vida. A vida de um aluno. A vida de uma criança.
E isso aconteceu justamente no dia em que completo 10 anos de docência.
Muita coisa aconteceu até aqui. Em dez anos, é impossível não ir e voltar nas memórias.
Dez anos atrás eu morava com meus pais. Hoje moro ao lado deles, mas não com eles.
Dez anos atrás eu tinha minhas avós. Hoje sou neto sem avós.
Dez anos atrás eu sonhava com tudo o que tenho hoje.
E, curiosamente, às vezes eu penso que talvez eu fosse mais feliz naquela época. Porque uma coisa que dez anos de escola fazem com a gente é, talvez, tirar um pouco da magia do olhar. Hoje eu tento olhar para as coisas buscando uma realidade mais concreta.
Mas hoje também foi um dia de sinais.
Além do episódio da criança, houve outro momento forte. Em uma conversa, falei algo simples, quase espontâneo: que nós, que temos Maria como mãe, às vezes só podemos nos agarrar ao manto dela e pedir colo, porque é isso que se pede de uma mãe. Aquela frase encontrou lugar. Casou com o momento.
Eu não sei se o lugar onde estou é o lugar onde quero estar para sempre. Mas sei dizer que hoje estou exatamente onde o tempo me colocou. E, quando digo tempo, entenda Deus. Oxalá. Essas forças maiores que chamamos de donas do tempo.
Hoje também tive mais uma daquelas noites boas com minha família. Jantar, conversar com minha mãe sobre coisas desse mundo e do outro. Fazer reflexões físicas e metafísicas sobre o que às vezes nem compreendemos, mas que nos mantém de pé.
Hoje eu faço 10 anos de escola e, às vezes, me lembro de que ainda sou só um menino. Um menino de 29 anos. E penso naquele menino de 19 que chegou ainda mais menino àquela secretaria.
Eu olho para tudo isso e penso: eu fiz o que pude.
Eu gostaria de ter feito mais. Mas eu fiz o que pude.
Agora, caminhando para os 30, meu único compromisso com a vida é este: eu quero viver tudo isso. Quero sentir tudo isso. Porque tudo isso é muito, muito bom. E tudo isso me nutre.
Vida e docência se misturam e eu já discutia isso lá em 2018, no meu TCC, inspirado por autores como Maurice Tardif, António Nóvoa, José Carlos Libâneo e tantos outros. A docência atravessa a identidade da gente.
Naquele dia, quando entrei na Secretaria, eu não sabia que estava deixando de ser apenas Daniel para me tornar “Professor Daniel”.
E há alguns anos eu venho fazendo um trabalho delicado, quase de formiguinha: tirar os títulos, tirar as camadas, reencontrar aquele Daniel da borracharia. Que é só Daniel.
Eu ainda estou nesse caminho.
Mas eu prometo: eu vou reencontrá-lo.