Cresci num mundo rodeado por referências. As pessoas sempre falavam muito sobre outras pessoas, coisas, eventos, reflexões; citavam as mudanças que viam em uma parte do bairro, lembravam de situações de 20 anos atrás e convidavam os interlocutores a puxar os fios juntos...
Estou em um mundo com muitas histórias. Reais, inventadas, meio a meio. Histórias de superação, de chutar o balde, de chutar e buscar o balde depois, histórias sem balde. Histórias de gente que viveu bem sua vida e das que deixam uma melancolia no fim das frases.
Crescer em um mundo de referências sempre me fez pensar muito fora. Na borracharia do meu pai, ouvia histórias de caminhoneiros contando verdadeiras sagas para carregar uma carga de areia em uma mineradora ou meu pai relatando suas vivências de quando trabalhava na extração de pedra ardósia.
Toda essa posição de ouvir e construir o mundo me fez querer ter as minhas histórias, os meus relatos. E, para ter o que contar, descobri cedo que era preciso viver e, bom... eu tento.
Buscar as referências foi o que me ajudou a dar nomes para coisas que estavam
aqui e eu não sabia como lidar.
Como explicar que eu gostava de homens? Como falar sobre a angústia que atravessa as gerações da minha família? Como falar das mudanças que ocorrem no mundo e eu não me sentia parte delas? Como ser um millennial e lidar com uma invasiva (e quase patológica) onda de nostalgia em relação a coisas de 10 anos atrás?
O movimento em busca das referências foi o que me fez girar pela vida. É o que me fez amigo da Ana em 2014 e um ouvinte contumaz das narrativas do Thiago Matos por anos a fio. Buscar as minhas referências me faz ser alguém que já estudou coaching e fundamentos da matemática elementar. Me fez dar nome à solidão adolescente que assola nós, gays que não tivemos o primeiro namorado na idade em que as pessoas não-LGBTs costumam ter suas primeiras relações.
Caminhar na vida coletando mudas, plantas e sementes que, aos poucos, foram engrandecendo meu pomar, jardim, gramado e tomando conta da minha existência é justamente o que justifica todo o meu existir. Afinal, não existiria eu, da forma como sou, se eu não admitisse estar em constante expansão.
Eu expando e expando muito. Expando em muitas frentes diferentes. Expando na fé, abrindo minha cabeça ao que pensa a umbanda e tentando romper com as dicotomias certo/errado, bom/mau. Expando na alimentação e vou construindo novas formas de me alimentar, comendo alimentos mais saudáveis, que me permitem ter mais energia, empenhar menos dinheiro e refletir sobre o meu impacto no meio ambiente.
Expando na compreensão dos meus afetos. Compreendo as minhas fragilidades e sigo em busca de me tornar mais forte, mas sem que isso implique renunciar a mim. Expando e dou conta de ouvir todas as pessoas que estão à minha volta com os seus problemas e as suas alegrias, e me sinto legítimo em celebrar os seus movimentos e acolher as suas lágrimas.
Expando e dou conta de falar dos meus problemas e pedir que me deem colo.
Expando porque expandir é o meu jeito de sobreviver. Se tá ruim na relação, senta, vamos conversar. Vamos ler um livro, fazer uma terapia, ir a um retiro, receber os amigos, pedir um conselho, acender uma vela para Nossa Senhora, adocicar o Anjo.
Se surge uma emoção meio estranha que ainda não sei o nome, vamos ler uma literatura russa ou uma receita de pão de queijo sem glúten. Vamos fazer uma faxina, molhar as mãos lavando a vasilha, caminhar descalço, pé no chão, para aterrar as energias.
Expando porque venho de uma família de pessoas grandes. De famílias que sonham muito (no sentido literal, do sonho no momento do sono, e no sentido figurado – na constante tentativa de elaboração dos seus desejos).
Minha avó materna antecipava as ocorrências da vida conforme os sonhos lhe traziam signos à noite que ela tinha de decifrar. Se sonhava com abóbora: alguém está grávida. Se era com dentes: o perigo nos cerca. Minha avó falava de tudo. Cantava suas músicas de menina da sua infância em Itamarandiba e repetia a história de quando foi sozinha, aos sete anos, buscar sua irmã caçula que fora doada para uma família em Niterói.
E teve a minha avó paterna (que viu a mãe no fundo do quintal, sete dias depois de falecida, vestida no traje do sepultamento do qual ela não participou). Teve a tia Conceição. A bisavó. A tataravó que revelou, no sonho da minha mãe, uma erva para curar um problema de saúde da Carol.
Expando porque expandir é o meu jeito de existir. É a forma como eu descobri a escrita, a fotografia, a escuta, os lápis de cor para colorir mandalas contra o estresse e os Boobie Goods. Expando porque em mim cabe a risada assistindo Andressa Urach no De Frente com Blogueirinha e a seriedade em assistir mil vezes Gal Costa no De Frente com Gabi.
Expando porque expandir é o meu jeito de viver. De ser. De construir. De constituir. De juntar os meus amigos. De encontrar sentido na vida. De ser um filho melhor. Um tutor melhor. Um namorado melhor. Um amigo que tem buscado priorizar as amizades. Um irmão que está mais atento às irmãs.
Expando porque não tem outro jeito. Se eu não expandisse, não seria eu.
Expando, mudo e convido as pessoas à minha volta a expandir e mudar também.
Porque mudar é o jeito mais fácil de chegar um pouquinho mais perto de quem eu quero ser.
Expando porque expandir é o meu jeito de significar essa existência.
A única que tenho.
E eu sei que tenho que fazer o meu melhor.
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