Encerra em duas semanas aquilo que talvez tenha sido o
melhor ano da minha vida. Ficou meio sem sentido essa expressão, ainda mais
quando consideramos meus 20 anos, mas acho ter tempo suficiente para definir o
que foi bom e o que não foi e apesar dos problemas, dos desesperos, eu nunca
vivi um ano tão bom quanto 2016 (talvez seja bondade minha, ou romantização
demasiada, mas de veras, me sinto bem com esse ano).
Levei pau na faculdade, arranjei o primeiro emprego da
minha vida fora da borracharia do meu pai, tive umas desilusões bem pertinentes,
tive cinco cartões de crédito, conheci o Rio de Janeiro, fui a praça da
Liberdade 5 rolês seguidos, um dos meus melhores amigos não fala mais comigo, escrevi
bastante, li bastante, conheci gente nova, re-conheci gente velha, sequei
lágrimas de outros e chorei bastante, ganhei um quarto novo, abri minha casa
para visitas, revisitei minhas zonas de conforto, aprendi palavras novas,
larguei o celular, voltei pro celular, dormi fora de casa, tomei cerveja com
gente bonita, me apaixonei, me apaixono, conheci Youtubers legais, melhorei
minha relação com a família, fumei cigarro de palha, diminui meu consumo de álcool,
comprei coisas no Mercado Livre, fui na Bienal do Livro, aprendi a amar de
outras maneiras, tive de acalmar. Tive um bom ano.
Um ano feliz.
Um ano intenso.
Dormi tarde inteiras, e chorava de arrependimento. Aprendi
a me perdoar.
Esperava visitas que até agora não chegaram. Aprendi a
perdoar.
Abandonei pessoas em eventos. Aprendi a pedir perdão.
Tirei notas baixas. Entendi a frustração do fracasso
escolar.
Fui a favor do aborto. Fui contra o aborto. E hoje não
opino mais: nem útero eu tenho.
Não fui ao show da Sandy. Fui ao da Clarice Falcão e
ficava olhando as letras das músicas no celular. Fui ao cinema várias vezes e
descobri que quanto mais barato o cinema, mais filmes eu podia ver, e que
quanto melhor a companhia, menos eu via os filmes.
Virei noites falando demais com quem importava, e aprendi
a dormir as sete e levantar as nove.
Aprendi o que significa meiota. Fiz faxina de noite e
depois baguncei tudo de manhã.
Em 2016 fui feliz, sim. Bastante feliz.
Guardo em mim nessa noite fria da primavera (sim, fria
noite da primavera) a gratidão pelos abraços recebidos. O orgulho de ter visto
tanta gente amadurecer quase que diariamente. A alegria de ver pessoas se
livrar de amarras invisíveis. A tristeza de ter perdido um primo. O respeito
pela dor dos outros.
2016 me ensinou que não sou bom em muita coisa, e me
ensinou que há sim o caminho pela busca em ser bom em algo, e eu quero ele para
mim. Me ensinou que não há verdade absoluta, e eu que me inclinei favorável as
discussões ateístas, desprendi de mim e senti um fervor atípico na oração de
confraternização na escola que eu trabalhava. Aprendi o que é a inveja e
descobri que eu posso invejar alguém, e que ser invejoso é pior do que ser
invejado. Entendi a metáfora dos homens que se cruzam, trocam pães e seguem o
caminho cada um com um pão, enquanto os que se cruzam, trocam ideias, e seguem
cada um com duas ideias, e tive de me calar.
É real: tenho mais a aprender do que a ensinar.
Entendi do que são feitos os bons professores e não sei se
um dia serei um. Aprendi a olhar com cuidado o trabalho dos outros. Comprei
menos roupa que em 2015. Gastei muito dinheiro à toa. Mas amei.
Encerrarei 2016 com a sensação de ter feito a coisa certa.
Se me for privado o direito de viver 2017, estarei por mim satisfeito pelo que
fiz até agora, mas quero mais, quero alçar voos maiores, quero mais abraços,
mais oportunidades de aproveitar o que sei. Quero mais sonhos, mais
companheiros inseparáveis, mais oportunidades para demonstrar que amo. Quero
dias de cachorro louco. Dias de calmaria. Dias de inutilidade. Dias fazendo
coxinha com o meu povo. Dias estudando para provas.
Tive um bom ano. Descobri coisas boas. Vi Dilma ser
deposta e entendi que nem todo mundo vai ser honesto o tempo todo. Trump foi
eleito e eu pedi que não me dessem mais notícias ruins. Fidel morreu e eu
fiquei dividido: ele ferrou ou salvou Cuba? Defendi a esquerda, reavaliei a
pauta da direita, fui para o centro, quase filiei a Rede e depois chutei o pau
da barraca. Vi Lady Gaga voltar e entendi que ela não era a mesma de cinco anos
atrás, e Deus me livre ser o mesmo Daniel de cinco anos atrás.
Foram dias bons. Foram noites bem dormidas. Foram boas as
noites mal dormidas.
Que 2017 traga paz, alegria, prosperidade e luz.
Eu só quero ser feliz, feliz.
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