Nestes dias, muitos pensamentos têm me acompanhado (como sempre acompanham).
Dos
que têm vindo com certa recorrência, tenho refletido sobre a relação entre
passado e presente. Olhando para algumas coisas que eram objetos de angústia
até pouco tempo atrás, me pego pensando se o rumo das coisas se dá por redenção
da vida ou por um continuum da trajetória.
Fico
pensando em como a tese da redenção me soa injusta com os muitos eus que tive.
Reduzir a vivência à mera perseverança, como se não houvesse entrega, presença,
perspectiva ou possibilidade de vida ali, parece apagar o melhor que cada um
deles pôde ser.
Entendo
que a tese que melhor descreve o movimento temporal é a da continuidade. E que
hoje vivencio novas perspectivas porque o horizonte se abre. Vou me dando o
direito de experimentar, vivenciar, ser, ouvir, falar, assistir, pensar,
elaborar, e a vida se dá. Aliás, segue se dando.
Desse
pensamento vem a necessidade de compreender uma gramática minha: uma forma de
me entender e de me explicar para mim mesmo. Penso em quando alguém me conta
uma história e eu junto as informações sobre o contexto e o fato ao que sei
daquela pessoa, tecendo a minha visão sobre o que ela narra. Concluo que, por
mais que eu conheça aquela pessoa e tenha o compromisso com a escuta sincera e
o não julgamento, nunca saberei a história exatamente do seu ponto de vista. E,
mesmo que ela me explique, sempre haverá uma distância.
Faço
as pazes com a minha relação com as vivências alheias para pacificar a relação
dos outros com as minhas caminhadas.
Não
dá para explicar, esclarecer, informar e acreditar que o outro vai me
compreender 100% (até porque nem eu, que estou comigo o tempo todo, dou conta).
Sempre haverá a distância da compreensão, o desencontro de visões da história,
aquilo que o outro sabe de mim e eu não sei, aquilo que não sabe, um ponto de
vista a partir do qual nunca serei capaz de ver as coisas.
Entendo
a necessidade de uma gramática pessoal que me explique a mim mesmo. Que me
ajude a alinhar signo, significado e significante de uma forma que descreva, da
maneira mais fiel possível, o que se vê, se vive, se ouve, se faz, se sente, se
percebe e se intui.
Também
me acompanham os pensamentos de balanço desse primeiro mês dos 30 anos. Tem me
vindo uma espécie de balanço com o tempo. A vida cheia que nutro (cheia na
perspectiva do volume e da pulsão vital necessária para se manter): cachorros,
casa, peixes, livros, viagens, amigos, espiritualidade, família, vida
profissional, cuidado com a saúde física, terapia, saúde emocional para além da
terapia, estudos, hobbies fixos e ocasionais, plantas, um jeito muito pessoal
de olhar o mundo e olhar os outros.
Uma
vida cheia, cheia e interessante, mas que requer muita pulsão para ser vivida.
Uma pulsão que, às vezes, carece de energia quando algo entra em crise e
precisa de energia extra para reencontrar seu curso (ou estabelecer um novo).
Meses
atrás, na terapia, fiquei diante da pergunta sobre se minha vida era ou não
interessante. Entendia tudo como uma longa palestra de três horas sobre a
subjetividade que mantém o sujeito dono de si mesmo. Assumi não ter toda a
teoria para a vida e vim para o jogo. Vim para o play, para o mundo onde as
coisas acontecem.
E,
bem, me surpreendo. Muito. Positivamente. Com uma galera que vem habitando o
mundo de uma forma profundamente pessoal, mas buscando formas autênticas de
assumir a própria existência, sem receio de cair num clichê muito comum (e nem
por isso deixando de dar legitimidade ao próprio passo).
Nenhum
homem é uma ilha, mas são necessárias muitas delas para constituir um
arquipélago. E, por baixo da água, os caminhos de uma ilha para a outra estão
mais próximos da superfície do que nossa imaginação é capaz de estabelecer
espontaneamente.
O
contínuo, minha gramática de mim mesmo, a própria vida como lugar de gozo e
habitação.
A
vida e seus percalços. Daniel e seus pensamentos...