sábado, 2 de maio de 2015

Amanhã tem mais ou não tem?

Existe uma fase na vida, um momento, um instante em que começamos a esquecer a ordem natural das coisas; e a ideia de começo, meio e fim se torna dispensável, e declaramos ao fim de cada dia, cada aventura, cada explosão: amanhã tem mais. É interessante como a ideia de continuação existe e é real em nossa vida, e como ela distingue da realidade fria e cruel que nos diz que cada dia é um a menos, cada momento pode ser o último, mas, amanhã tem mais é o refúgio da alma presa à luz da vida, da alma que não vagará mais mundo a fora, da alma que insiste em brincar para sempre e não aprender com seu amontado de experiências.

Mas há a hora da dor. Existe um dia em que não haverá mais amanhã. Porém, você se habituou com o amanhã tem mais. E quando você espera o amanhã e ele não existe, o amanhã é apenas mais um espaço no tempo, uma localização no calendário, o amanhã é apenas mais uma passagem da vida e nada mais que isso, você volta a realidade de que as coisas têm fim. E o fim, mais doloroso que a temida dor de dente, quando chega e nos pega de surpresa arranca lagrimas, pedaços de nós e sangue. Como um golpe de bom espadachim, somos acertados pela vida e pelas incertezas e medos de um fim.

Quando tudo acaba, e você acorda e se vê perdido nos destroços de uma casa, e olha o mundo em sua volta, ninguém, nada. Quando tudo acaba não há novo e velho, bonito ou feio, certo ou errado, abstrato ou concreto, tudo é destruído. A confiança estilhaça como uma taça que é jogada ao chão. O amor, o desejo, a alegria se perdem na proporção em que o brilho dos seus olhos apaga, e tudo se torna aquele lugar sem cor, sem sentido. Quando tudo acaba tudo que há é você e seu mundo, nada mais. E de brinde, as consequências.

Mesmo sabendo de suas responsabilidades, sabendo que a vida é um processo de construção que se faz segundo a segundo, as pessoas dão uma pausa em suas tarefas, elas largam seus empregos, terminam casamentos, com vontade de viver um pouco do amanhã tem mais. Há dias na vida, que se arrastam por semanas, meses ou anos, em que você precisa ser inconsequente e viver dias-sem-fim. E viver só mais o amanhã, e só amanhã.

Enquanto também há dias em que tardamos tudo para amanhã: amanhã eu ligo, amanhã eu peço, amanhã eu vou. Estendendo isso a uma escala maior, imagino frases como amanhã eu amo, amanhã eu peço perdão, amanhã eu penso na minha vida, amanhã eu arrumo as coisas. E se não houver amanhã? Será que não lhe pesará no tornozelo o perdão não recebido, ou o amor não revelado?

Três contextos para nossas histórias. Três rumos: amanhã tem mais, eu preciso me encontrar hoje e amanhã eu faço. Tudo se encontra no fim. Tudo se encontra quando não há saída. Tudo se encontra quando tudo acaba. Tudo se encontra quando a dor chega, quando você percebe nos erros não reparados, começa a se culpar, a questionar se em todo momento foi de fato ingênuo, ou se a partir de algum ponto começou a ser omisso.


Você só para e percebe que as coisas estão indo desembestadas caminho a fora, quando o amanhã deixa de ser uma perspectiva de melhora e se torna mais um desafio na luta que é o viver.

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